Novo Dacia Spring muda tudo, cresce e mira elétricos baratos na Europa

O novo Dacia Spring rompe com o projeto ligado ao Kwid E-Tech, ganha plataforma elétrica do Grupo Renault, cresce em tamanho e passa a ser produzido na Eslovênia. Com bateria LFP de 27,5 kWh, autonomia de até 250 km no ciclo WLTP e preço abaixo de 20 mil euros, o compacto reforça a disputa entre os elétricos mais acessíveis da Europa.

A Dacia apresentou a segunda geração do Spring, seu elétrico de entrada para o mercado europeu. Apesar de manter o nome, o modelo rompe com o projeto anterior: troca a arquitetura ligada ao antigo Kwid elétrico por uma nova plataforma do Grupo Renault, cresce em tamanho, recebe bateria LFP e passa a ser produzido na Europa.

A mudança é importante porque o Spring deixa de ser, tecnicamente, aquele “primo europeu” tão próximo do Renault Kwid E-Tech conhecido pelos brasileiros. Segundo a própria Dacia, a segunda geração foi totalmente redesenhada sobre a nova plataforma RG-EV Small, desenvolvida pelo Grupo Renault para elétricos compactos. A produção será realizada em Novo Mesto, na Eslovênia, deixando para trás a fabricação chinesa da geração anterior.

A estratégia também preserva uma característica essencial do Spring: preço baixo. A Dacia confirma toda a gama abaixo dos 20 mil euros, antes dos incentivos governamentais, colocando o compacto novamente entre os elétricos mais acessíveis da Europa.

Spring cresce e fica bem mais largo

A troca de plataforma alterou significativamente as proporções. O novo Spring mede aproximadamente 3,85 metros de comprimento, 1,74 m de largura, 1,52 m de altura e 2,49 m de entre-eixos. Em relação ao antecessor, um dos ganhos mais perceptíveis está na largura, com 18 centímetros adicionais.

Novo Dacia Spring elétrico visto de perfil
Foto: Divulgação/Dacia

Esse crescimento ajuda a explicar a mudança visual. A carroceria estreita e com aparência de pequeno SUV do antigo Spring dá lugar a proporções mais próximas das de um hatch convencional.

A Dacia também aproveitou a nova arquitetura para aumentar o espaço disponível sem deixar o carro excessivamente pesado. O modelo pesa pouco mais de 1.200 kg, número contido para um automóvel elétrico atual.

Por dentro, o Spring continua homologado para quatro ocupantes. O porta-malas oferece 337 litros e pode chegar a 1.283 litros com os encostos traseiros rebatidos. Há ainda a possibilidade de instalar um compartimento dianteiro de 18 litros, útil principalmente para guardar os cabos de carregamento.

Motor tem cerca de 80 cv e bateria é LFP

A gama também ficou simples do ponto de vista mecânico. O motor elétrico dianteiro entrega 60 kW, equivalentes a cerca de 80 cv, acompanhado de 175 Nm — aproximadamente 17,8 kgfm — de torque.

Segundo os dados divulgados pela Dacia, o Spring acelera de zero a 100 km/h em 12,1 segundos e alcança velocidade máxima de 130 km/h.

A bateria é de fosfato de ferro-lítio (LFP), com 27,5 kWh de capacidade útil. A autonomia declarada chega a 250 km no ciclo WLTP. Portanto, o número não deve ser comparado diretamente com autonomias homologadas pelo Inmetro no Brasil, pois são referências de medição diferentes.

Novo Dacia Spring elétrico circulando em via urbana
Foto: Divulgação/Dacia

A capacidade relativamente pequena da bateria também ajuda a controlar peso e custo. É uma solução coerente com a proposta predominantemente urbana do carro.

Recarga rápida leva 28 minutos

De série, o Spring recebe carregador embarcado AC de 6,6 kW. Em uma wallbox de 7 kW, a bateria pode passar de 15% para 80% em aproximadamente 2 horas e 55 minutos.

Há um pacote opcional que inclui carregador AC de 11 kW e carregamento rápido DC de até 50 kW. Nesse caso, a passagem de 15% para 80% pode ser realizada em cerca de 28 minutos.

Embora 50 kW pareça pouco diante das potências oferecidas por elétricos maiores, existe uma diferença importante: o Spring tem apenas 27,5 kWh de capacidade útil. Por isso, olhar somente para a potência máxima de recarga não mostra quanto tempo o motorista realmente permanecerá conectado.

Interior evolui, mas Dacia continua economizando

A transformação também chegou à cabine. O quadro de instrumentos digital tem 7 polegadas, enquanto as versões superiores podem receber central multimídia de aproximadamente 10 polegadas.

Mesmo assim, o Spring continua seguindo a filosofia de baixo custo da Dacia. Plásticos rígidos, soluções simples de acabamento e diferenças importantes de equipamentos conforme a versão fazem parte da receita para controlar os custos.

Essa talvez seja uma das características mais interessantes do projeto: a Dacia investiu onde uma nova geração precisava evoluir — plataforma, dimensões, bateria e tecnologia — sem tentar transformar seu elétrico de entrada em um produto de proposta premium.

Interior do novo Dacia Spring com painel digital e central multimídia
Foto: Divulgação/Dacia

Preço abaixo de 20 mil euros é a grande aposta

A versão de entrada Expression parte de 17.900 euros, enquanto a configuração mais equipada permanece abaixo de 20 mil euros, sem considerar eventuais incentivos oferecidos nos diferentes países.

Em conversão direta, os valores equivalem aproximadamente à faixa de R$ 107 mil a R$ 120 mil. Essa conta serve apenas como referência cambial: impostos, incentivos, custos comerciais e diferenças entre os mercados impedem que esses números sejam tratados como uma estimativa de preço para o Brasil.

Com preço abaixo de 20 mil euros, o Spring entra justamente na disputa pelos elétricos mais acessíveis da Europa, segmento que vem recebendo novos concorrentes, inclusive de fabricantes chineses, como BYD e Geely.

É nesse cenário que a produção na Eslovênia ganha importância. A nova geração combina preço baixo, fabricação europeia, plataforma moderna e uma bateria relativamente pequena. Em vez de disputar potência ou grandes números de autonomia com elétricos maiores, a Dacia continua apostando em simplicidade, eficiência e custo de aquisição.

Spring agora segue caminho próprio longe do Kwid

Para o brasileiro, a transformação chama atenção principalmente pela relação histórica entre Spring e Kwid E-Tech. A geração anterior compartilhava suas origens com o pequeno Renault elétrico, mas a nova praticamente encerra essa associação técnica.

A plataforma RG-EV, as novas proporções e a fabricação eslovena colocam o Spring em uma trajetória própria dentro do Grupo Renault.

Isso não significa que exista um novo Kwid E-Tech confirmado para o Brasil baseado nesse projeto. A Dacia não anunciou a comercialização desta geração do Spring no mercado brasileiro, e qualquer associação nesse sentido seria especulativa.

O que já pode ser observado é uma mudança de estratégia: em vez de simplesmente atualizar um elétrico barato concebido a partir de uma arquitetura anterior, a Dacia passa a contar com um compacto desenvolvido para a nova fase dos carros elétricos de entrada.

O desafio agora será provar que toda essa evolução consegue preservar justamente o atributo que tornou o Spring relevante desde o início: ser simples e acessível em um mercado europeu no qual a disputa pelos elétricos de entrada está ficando cada vez mais intensa.

Josean Belo dos Santos
SOBRE O AUTOR

Josean Belo dos Santos

Josean Belo dos Santos é editor do Rota dos Carros e atua há cerca de 20 anos na produção de conteúdo sobre o setor automotivo. Ao longo de sua trajetória, escreveu para portais especializados, com passagens por sites como Del Carros e Portal N10, acompanhando de perto as transformações do mercado brasileiro de automóveis. Além da experiência no jornalismo automotivo, Josean é agente de trânsito em Picos, no Piauí, atividade que amplia seu contato diário com temas relacionados à mobilidade, segurança viária, legislação e comportamento dos motoristas. No Rota dos Carros, é responsável pela produção e edição de conteúdos sobre notícias, lançamentos, avaliações, comparativos, preços e ofertas, além de guias de serviço e trânsito. Seu trabalho combina pesquisa em fontes oficiais, apuração própria, entrevistas com profissionais do setor e experiência prática para produzir informações úteis e confiáveis para quem acompanha o mercado automotivo.