BYD vê lucro cair 20,5%, enquanto vendas no exterior disparam

A BYD registrou queda de 20,5% no lucro líquido no primeiro semestre de 2026, mas apresentou recuperação no segundo trimestre. Ao mesmo tempo, as exportações cresceram 67,8%, aumentando a importância dos mercados internacionais para a estratégia da fabricante.

A BYD encerrou o primeiro semestre de 2026 com números que mostram dois movimentos distintos. De janeiro a junho, o lucro líquido caiu 20,54%, para 12,33 bilhões de yuans, enquanto a receita recuou 7,13%, para 344,82 bilhões de yuans, segundo o relatório intercalar de 2026 divulgado pela própria BYD.

Ao mesmo tempo, a fabricante acelerou sua expansão internacional e começou a mostrar recuperação no segundo trimestre. Entre abril e junho, o lucro líquido chegou a cerca de 8,2 bilhões de yuans, avanço de 30% sobre o mesmo período de 2025. A receita trimestral, porém, caiu cerca de 3%, para 194,6 bilhões de yuans.

A diferença entre o resultado acumulado e o desempenho mais recente é importante. O segundo trimestre indica uma reação, mas ainda não permite concluir que a pressão enfrentada pela BYD acabou. O cenário também ajuda a explicar por que vender mais carros fora da China está se tornando uma parte cada vez mais relevante da estratégia da empresa.

Mercado chinês pressiona os resultados da BYD

A própria BYD relacionou a redução da receita no semestre ao desempenho mais fraco do negócio de veículos de nova energia (NEV). As variações cambiais também tiveram impacto negativo sobre o lucro.

O problema não significa falta de escala. A fabricante continua comercializando volumes elevados, mas enfrenta na China uma concorrência intensa, acompanhada por descontos e lançamentos frequentes de novos produtos.

BYD Dolphin elétrico rodando em estrada litorânea
Foto: Divulgação/BYD

No primeiro semestre, foram vendidos 1.808.511 veículos, queda de 15,72% em relação ao mesmo período do ano anterior. A retração, entretanto, perdeu força durante o semestre: no segundo trimestre foram 1.108.048 unidades, 3,24% abaixo de 2025, depois de uma queda de 30,01% nos primeiros três meses.

Os números mostram por que volume e rentabilidade precisam ser analisados separadamente. Uma fabricante pode continuar vendendo mais de 1 milhão de carros em poucos meses e, ainda assim, enfrentar dificuldade para ampliar seus resultados quando precisa disputar consumidores em um ambiente de preços mais agressivos.

Segundo trimestre mostra reação

A alta de aproximadamente 30% do lucro entre abril e junho encerrou uma sequência de resultados trimestrais negativos na comparação anual. A recuperação ocorreu mesmo com a receita ainda apresentando retração.

Outro indicador ajuda a entender essa diferença. A margem bruta da BYD ficou em 18,85% no primeiro semestre, contra 18,01% um ano antes, apesar de o lucro bruto ter recuado 2,81%, para 64,99 bilhões de yuans.

Além da expansão internacional, a composição das vendas também começa a pesar. As marcas de maior valor agregado do grupo — Denza, Fang Cheng Bao e Yangwang — cresceram 61% e passaram a representar 12,8% das vendas de veículos de passageiros.

Isso ajuda a mostrar uma transformação importante para a BYD. A empresa não depende apenas de aumentar o número de carros vendidos; ampliar a presença em segmentos de maior valor e em mercados potencialmente mais rentáveis pode ser igualmente importante para sustentar os resultados.

Exportações passam a ter peso muito maior

É fora da China que aparece um dos números mais relevantes do balanço. A BYD exportou cerca de 792 mil veículos no primeiro semestre, crescimento de 67,8% em relação a 2025. O volume correspondeu a aproximadamente 44% das vendas da empresa no período, segundo os dados corporativos divulgados pela companhia em seu relatório intercalar.

Somente no segundo trimestre, as vendas internacionais chegaram a 471.091 unidades, alta de 82,46% sobre um ano antes e de 46,68% em relação aos três primeiros meses de 2026.

Quando quase metade do volume passa a estar relacionada aos mercados externos, a internacionalização deixa de funcionar apenas como complemento à operação chinesa. Ela começa a reduzir a dependência de um mercado doméstico onde a competição por preço está pressionando os fabricantes.

Julho reforçou essa tendência: as vendas internacionais de automóveis de passageiros e picapes atingiram o recorde de 179.841 unidades, avanço de 124,3% em um ano e equivalente a cerca de 43% das vendas mensais da BYD.

Brasil ganha importância nessa expansão

A América Latina está entre as regiões utilizadas pela BYD para ampliar sua presença fora da China, ao lado da Europa e de outros mercados. Nesse cenário, o Brasil ganha relevância não apenas como destino de veículos importados, mas como parte da construção de uma operação internacional mais ampla.

Isso não significa que o mercado brasileiro seja responsável pela recuperação dos resultados globais. Os números disponíveis não permitem essa conclusão.

BYD Song Plus em cenário urbano
Foto: Divulgação/BYD

Para o mercado brasileiro, o movimento ajuda a colocar a expansão da BYD no país dentro de uma estratégia mais ampla: aumentar o peso das operações internacionais enquanto a concorrência permanece intensa na China.

BYD ainda investe pesado em tecnologia

Mesmo diante da queda do lucro semestral, a fabricante manteve investimentos elevados em pesquisa e desenvolvimento. Foram cerca de 28,9 bilhões de yuans em P&D durante os primeiros seis meses do ano — aproximadamente 2,3 vezes o lucro líquido obtido no período. O investimento acumulado nessa área já supera 270 bilhões de yuans.

Esse número é relevante em uma indústria na qual bateria, eletrônica, sistemas híbridos, software e assistência à condução se tornaram campos importantes de competição. Reduzir esses investimentos para proteger o lucro no curto prazo poderia comprometer justamente a capacidade de lançar produtos competitivos posteriormente.

Recuperação ainda precisa se confirmar

O balanço da BYD não conta uma história simplesmente positiva ou negativa. Receita e lucro caíram no primeiro semestre, enquanto vendas internacionais, margem bruta e lucro do segundo trimestre apresentaram sinais mais favoráveis.

A principal mudança está na geografia do negócio. A China continua fundamental, mas a expansão internacional está ganhando peso suficiente para ajudar a compensar parte da pressão doméstica.

O segundo trimestre indica que a BYD pode ter iniciado uma recuperação. Para saber se houve realmente uma mudança de tendência, porém, será necessário observar se a fabricante consegue manter o avanço fora da China sem depender de uma disputa de preços que volte a pressionar suas margens.

Nesse cenário, Brasil, América Latina e Europa deixam de ser apenas mercados adicionais. Eles passam a fazer parte de uma estratégia cada vez mais importante para sustentar a próxima etapa de crescimento global da BYD.

Josean Belo dos Santos
SOBRE O AUTOR

Josean Belo dos Santos

Josean Belo dos Santos é editor do Rota dos Carros e atua há cerca de 20 anos na produção de conteúdo sobre o setor automotivo. Ao longo de sua trajetória, escreveu para portais especializados, com passagens por sites como Del Carros e Portal N10, acompanhando de perto as transformações do mercado brasileiro de automóveis. Além da experiência no jornalismo automotivo, Josean é agente de trânsito em Picos, no Piauí, atividade que amplia seu contato diário com temas relacionados à mobilidade, segurança viária, legislação e comportamento dos motoristas. No Rota dos Carros, é responsável pela produção e edição de conteúdos sobre notícias, lançamentos, avaliações, comparativos, preços e ofertas, além de guias de serviço e trânsito. Seu trabalho combina pesquisa em fontes oficiais, apuração própria, entrevistas com profissionais do setor e experiência prática para produzir informações úteis e confiáveis para quem acompanha o mercado automotivo.